Ilha do Fogo: Chã das Caldeiras perdeu oportunidades para renascer da melhor forma – população

Quinta, 23 Novembro 2017

 

***Jaime Rodrigues, Inforpress***

São Filipe, 23 Nov (Inforpress) – O povoado mais turístico da ilha do Fogo, Chã das Caldeiras, arrasado pelas correntes de lavas da erupção de há três anos, teve oportunidades para “renascer” de forma ordenada, “mas tal não aconteceu e dificilmente a situação será revertida”.

O lamento é da população de Chã das Caldeiras, em declarações à Inforpress,  na altura em que se assinala o terceiro aniversário da última erupção vulcânica, ocorrida a 23 de Novembro de 2014.

“Incrédula e pessimista” quanto à realização dos projectos anunciados e apoiados quer pela comunidade internacional como pelos cabo-verdianos, residentes e na diáspora, a população culpabiliza os anteriores governos locais e nacionais, como os actuais pelo estado em que vive desde a erupção que consumiu terras aráveis, habitações, infra-estruturas sociais e colectivas.

As cerca de 500 pessoas que fixaram a residência na Caldeira e que diariamente, cada uma à sua maneira tenta driblar a situação e garantir a sobrevivência, preferem o silêncio do que reclamar das situações “graves” que as preocupa, afirmando que “já reclamaram muito mas sem solução à vista e por isso não vale a pena denunciar as situações, que aliás são conhecidas pelas autoridades locais e nacionais”.

Danilo Fontes, um dos residentes na Caldeira que, através da rede social, tem denunciado as situações em que vive a população é de opinião de que nestes três anos o que mudou é a paisagem de Portela, Bangaeira e outras localidades, mas de forma desordenada.

“Assim como estas casas estão desordenadas, é assim a vida das pessoas, desordenada e cada um luta à sua maneira para sobreviver”, disse Danilo Fontes, para quem as autoridades estão a “brincar” com aspectos “importantes” para a sobrevivência das pessoas, como água, trabalho já que as pessoas perderam parte ou a totalidade dos terrenos agrícolas e não podem retomar a vida.

Segundo o mesmo, “falta água, poder, organização, ordem pública, segurança”, e, defende, é preciso que as autoridades tenham em consideração a localidade, porque, conforme explicou, vivem lá cerca de 500 pessoas.

Apesar de anunciadas medidas restritivas de construções na Caldeira até a aprovação do plano de ordenamento, Danilo Fontes, indica que muitas pessoas construíram e estão a construir por falta de alternativas e as pessoas que não construíram ainda é por não terem condições para tal, e estão à procura de sobreviver de alguma maneira até encontrar condições, acrescentando que “as queimadas estão marcadas para a construção de habitações” para poderem viver num sítio tranquilo como antes da erupção vulcânica.

Quanto ao plano de ordenamento, este disse que a população tomou conhecimento através da comunicação social, quando seria necessário que as autoridades dialogassem com as pessoas, observando que cada um faz o seu0, porque “o poder não está instalado na Caldeira, e as pessoas não têm acesso à informação”.

“Temos necessidade de construir para viver e não ficar na rua, nesta localidade que faz frio”, disse.

A situação podia ser evitada se o Governo anterior tivesse retido os deslocados nos centros de acolhimento, satisfazendo as necessidades básicas enquanto estudava um plano para o território destruído, disse Danilo Fontes, opinião que é partilhada também pelas moradoras Djúdju e Luluxa.

Aliás Djudju, que passou mais de dois anos nos Mosteiros em espaço arrendado e que regressou à Caldeira por falta de alternativa, afirma que em vez do Governo ter gasto milhares no pagamento de renda, água e energia devia manter as pessoas nas tendas e aplicar esse dinheiro na construção do assentamento de forma directa ou disponibilizar montantes às famílias para a autoconstrução das suas moradias e que, ajuntou, hoje todo o problema estaria resolvido.

“Ouvimos que não podemos fazer nada dentro de Chã, como não vamos fazer, sabendo que temos as nossas vidas, família e é aqui que temos de trabalhar para viver e não há lugar para onde ir, disse dona Djudju, enquanto Luluxa defende que se o assentamento tivesse sido construído em Achada Furna a situação estaria muito melhor.

O engenheiro civil, alpinista e guia turístico, que trocou Europa por Chã das Caldeiras, Mustafa Eren, considera que com a erupção as pessoas ficaram mais pobres porque perderam terrenos, casas e outros investimentos, mas mais contentes, tranquilos e com mais experiência.

Acrescentou que depois da erupção tem havido uma boa motivação e que quem trabalha e investe está a fazê-lo mais focado, indicando que agora há uma melhor distribuição de turistas, com mais pessoas a participar no turismo do que antes da erupção.

“Agora somos uma comunidade mais pequena, solidária, com maior companheirismo do que antes da erupção, em que havia muito oportunismo”, afirma Mustafa Eren, para quem esta realidade ficou a dever-se ao facto das pessoas terem vivido juntas a erupção e aprenderam que uma pessoa sozinha não consegue tudo e que depende da ajuda dos outros.

“O processo de reocupação de Chã é marcado por dificuldades porque as pessoas perderam os seus terrenos e antes de regressarem para Chã estão a calcular bem o novo investimento”, disse, acrescentando que porque as pessoas perderam tudo muitas casas novas estão a ser construídas no espaço anterior e em lugar que representa perigo, já que não tem onde construir.

Para Mustafa, a dificuldade maior é  a nível económico porque quem quiser regressar só para trabalhar e continuar a residir em outras localidades, enfrenta “grandes problemas” porque não é viável fazer a deslocação todos os dias, ou de dois em dois dias, razão pela qual as pessoas têm de construir ainda que seja um funco para permanecer mais tempo na Caldeira.

Neste momento, calcula-se que 400 a 500 pessoas estão na Caldeira, mas o número de pessoas de Chã e com forte ligação à localidade aproxima-se de um milhar, e “mais cedo ou mais tarde todos vão regressar para residir”.

A mesma fonte defende que não é preciso fazer grandes investimentos e ter um parque natural fechado como nas Canárias, bem equipado para turismo porque Chã das Caldeiras vai perder todo o turismo, porque eles (turistas) têm o mesmo lugar com mais equipamentos, mais perto de Europa e mais económico.

Indicou ainda que em todo o Cabo Verde o imã mais forte para o turismo é Chã das Caldeiras, sublinhando que a “especialidade de Chã é a sua autenticidade e a sua população” assim como o tipo de turismo sustentável, de natureza em que os turistas procuram a natureza e o contacto com a população para conhecer a agricultura e saber o porquê de viverem ao pé de um vulcão activo.

Os populares apontam o caminho que deve ser seguido pelas autoridades para tentar “salvar” e resolver a situação, o que passaria pelo respeito à comunidade e aceitar as pessoas assim como elas são, estar mais próximas para ouvi-las e dialogar e “não trata-las como animais encurralados”.

“Antes da erupção todo o mundo estava contente com as pessoas e consideravam-nas de empreendedoras, depois no momento em que se precisa de apoio na organização para ajudar as pessoas, surgem outras a dizerem que a população de Chã é selvagem”, afirmam alguns dos residentes entrevistados pela Inforpress, afirmando que foi assim com o antigo presidente da Câmara de Santa Catarina do Fogo, como com o actual edil e com o Governo.

“Não falam com as pessoas e querem ameaça-las com policias e militares. São pessoas como nós. Não temos medo do vulcão e vamos ter medo de polícias e militares?”, questionou Danilo Fontes, observando que a população vai respeita-los como autoridades e para que os respeitem como residentes em Chã das Caldeiras, porque “é lá que têm de residir”.

JR/ZS

Inforpress/Fim

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