20 Maio 2019

Video Notícias

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8

Fogo/Erupção vulcânica: O que mudou em Chã das Caldeiras nos quatro anos que se seguiram  

  • PDF
Partilhar esta notícia

***Jaime Rodrigues, da Inforpress***

São Filipe, 21 Nov (Inforpress) – Assinala-se no dia 23 de Novembro, o 4º aniversário da última erupção vulcânica do Pico do Fogo, o ponto mais alto de Cabo Verde (2829 metros de altitude) e o 120º mais proeminente do mundo, que destruiu casas, terras e infra-estruturas sociais.

Foi a vigésima sétima erupção do Pico do Fogo (um estratovulcão), de que há registo, desde o ano de 1500, e a décima primeira ocorrida no interior de Chã das Caldeiras. A última erupção no cone principal teria ocorrido em 1675, causando emigração em massa da ilha, mas a única erupção que casou vítima mortal ocorreu em 1847, sendo que a ocorrência de vítima se deveu a sismos consequentes.

A mais recente erupção, ocorrida entre 23 de Novembro de 2014 e 08 de Fevereiro de 2015, durante 77 dias, cujo fluxo de lavas destruiu completamente as duas partes da Chã das Caldeira (Portela e Bangaeira), provocando um rasto de devastação, deslocando cerca de mil pessoas (concretamente 994), cujas casas foram “engolidas” literalmente pelas lavas que também destruiram terras, insumos agrícolas, adega de vinho com efeitos adversos nos meios de subsistência da população de Chã, mudando a sua rotina, estando ainda a sua gente dispersa e com famílias separadas por toda a ilha.

A erupção de há quatro anos, expeliu, segundo cálculos científicos, entre 100 a 125 milhões de toneladas de lavas, e destruiu também infra-estruturas sociais (escolas, centro de saúde, igrejas), a principal via de acesso, e a sede do Parque Natural do Fogo (PNF), que se situava na Caldeira, totalizando um prejuízo de 45 milhões de euros.

Durante esse período os sectores produtivos, sociais e de infra-estruturas, com destaque para propriedades privadas, nomeadamente 260 casas, sobretudo em Portela e Bangaeira, toda a infra-estrutura pública importante, como escolas, hotéis, um posto de saúde, estruturas desportivas, e estradas (cerca de 5.700 metros), terras aráveis (208 hectares), e infra-estruturas rurais, incluindo igrejas, foram totalmente destruídas, assim como a emblemática sede do PNF e o seu centro de visitantes.

O povoamento de Chã das Caldeiras começou no fim do século XIX ou início do século XX (data provável 1916/17), quando algumas famílias decidiram estabelecer residência ali para aproveitar o potencial agrícola. Segundo o censo de 2010 a população de Chã das Caldeiras era de 697 pessoas (357 mulheres e 340 homens) tendo aumentado para 964 (486 mulheres e 478 homens) e praticamente duplicou entre a erupção de 1995 e a de 2014.

Apesar de uma parte significa dos solos aráveis, cerca de 24 por cento (%) dos 848 hectares de terras cultiváveis ter ficado totalmente coberto pelas lavas, a agricultura que sempre foi a principal actividade geradora de rendimento para a população de Chã das Caldeiras continua a atrair a fixação da população neste espaço, aliado ao turismo.

Miguel Montrond, licenciado em Engenharia Agrónomo e Socio-Ambiental, considera que “com as erupções o solo é enriquecido e com boa pluviosidade há uma boa produtividade agrícola”, enquanto para David Monteiro Gomes “Neves”, técnico agrícola com muita experiência na vitivinicultura, pós erupção houve grande mudança no sector agrícola.

O turismo, sector onde todos os equipamentos que existiam sofreram danos a 100%, nomeadamente 14 estabelecimentos, seis restaurantes, dois bares e um posto de informação turística, assim como as instalações da sede do Parque Natural do Fogo, que era um atractivo turístico, ganhou nova dinâmica com a construção de novas instalações turísticas.

O sector habitacional foi fortemente afectado pelas lavas, sendo que antes do desastre, Chã tinha cerca de 284 unidades habitacionais, das quais 90% das casas estavam concentradas nas localidades de Portela e Bangaeira, que foram engolidas pelas lavas, destruindo 260 habitações.

Hoje, transcorridos quatro anos, Chã parece um autêntico estaleiro de obras com várias novas construções ou obras de reabilitação das moradias parcialmente destruídas pelas lavas, mas apesar disso “ainda há famílias a viverem em casas arrendadas e fora da Caldeira”, lembram os entrevistados da Inforpress, calculando que mais de metade das famílias estão de regresso.

Dados estatísticos disponibilizados pela edilidade de Santa Catarina confirmam esta “avalanche” de construções, muitas vezes desordenadas e sem respeitar as regras, o que levou a edilidade a embargar algumas das obras, até que os donos legalizem primeiro as construções de acordo com o Plano Detalhado de Chã das Caldeiras (PDCC) aprovado e em implementação.

Os dados de 2017 disponibilizados pela edilidade de Santa Catarina indicam que mais de 140 famílias ainda não regressaram em definitivo a Chã das Caldeiras. Destas 68 famílias estão alojadas nas casas construídas após a erupção de 1995, em Monte Grande, 40 nas casas de Achada Furna e 35 famílias estão alojadas em casas arrendadas, sendo que o Governo gasta 280 mil escudos mensais (perto de 3.400 contos ano) com as rendas.

Para o alojamento dessas famílias prevê-se a construção de 52 casas, novo assentamento em Chã das Caldeiras (Bangaeira).

Na Caldeira residem 142 famílias (520 pessoas) em casas e funcos (habitação tradicional de Chã) construídos e/recuperados, sendo que até este momento a população conseguiu recuperar 22 habitações que ficaram parcialmente destruídas pelas lavas da ultima erupção.

A nível de estabelecimentos turísticos, os dados de 2018 apontam para a existência de 08 estabelecimentos, todos activos, nomeadamente Casa Fernando, Oásis Cova Tina, Pensão Marisa, Casa Cecílio, Casa David, Casa Alcindo, Casa Adriano e Filomena Montrond, Pensão José Doci; três mercearias (Ramiro, Txicoza e Josezinho) e um bar, sendo que em termos de quartos os dados indicam a existência de um total de 86 quartos com mais de uma centena de camas.

Questionado sobre o que terá mudado nos últimos quatro anos, o edil de Santa Catarina do Fogo, Alberto Nunes, apontou a construção e equipamento da adega provisória, o abastecimento de água, o funcionamento do jardim infantil e da escola do Ensino Básico Integrado (EBI) ainda em espaços privados, a edificação da sede do Parque Natural do Fogo (PNF) onde funciona também a delegação municipal, onde está também instalado o posto policial que deve começar a funcionar diariamente nos próximos dias, o início das obras para a construção de acessos, do jardim e do EBI, que têm gerados vários postos de trabalhos para Chã e localidades limítrofes.

Uma das transformações que também ocorreu nesse lapso de tempo, segundo o edil, é a construção particular que passou a ser orientada pelo PDCC que tem uma visão clara do futuro e daquilo que o Governo e a edilidade querem para Chã das Caldeiras, trazendo beneficio directo para a sua população, lembrando que se trata de um plano de extrema importância e cujas fases da sua elaboração foram anunciadas e depois foi colocado à consulta pública na própria localidade.

“O PDCC já começou a ser implementado com a construção do jardim infantil que vai desembocar no complexo do EBI e depois a construção do posto de saúde”, disse Alberto Nunes, indicando que a equipa que está a executar a construção, está a definir um modelo daquilo que é o protótipo das construções e materiais a serem utilizados nas construções na Caldeira, tendo-se iniciado também os trabalhos de adaptação das construções existentes às tipologias de casas que se quer para o sítio.

JR/FP

Inforpress/Fim

 

Gostar disto:

GostoCarregando...

Leia ainda - Artigos mais recentes: