25 Abril 2018

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Ilha do Fogo: Teimosia das pessoas adia desaparecimento da secular tradição cultural da ilha 

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*** Por Jaime Rodrigues, da Agência Inforpress ***

São Filipe, 06 Jan (Inforpress) – No cumprimento da secular tradição, o “Reinado”, e apesar da pouca expressão face ao passado recente e a tendência para o seu desaparecimento, duas duplas de “reinados” fazem-se à estrada, a partir de hoje, percorrendo a ilha do Fogo até o dia das Cinzas.

Um dos reis mais antigo no activo, Filipe Fernandes “Nhô Tchina”, não obstante a idade avançada, 90 anos, vai adiando, enquanto tiver energia suficiente, o desaparecimento desta tradição cultural e para o efeito recrutou uma espécie de auxiliar de meia-idade para substituir o seu companheiro de sempre, Manuel Socorro Lopes “Mané di Papá”, de 92 anos, que já não está em condições físicas para percorrer as várias localidades da ilha entre o dia de Reis (06 Janeiro) e o dia de Cinzas, este ano 14 de Fevereiro.

Contrariamente ao passado em que o percurso era feito a pé, em parte devido a poucas viaturas, há alguns anos, o mesmo passou a ser feito, em grande parte, através de viaturas devido a idade avançada dos “reis” e também da maior dinâmica de circulação de viaturas entre as várias localidades da ilha.

Este ano, à semelhança do ano passado além da dupla Nhô Tchina e Nené di Bebeto (confraria da Nossa Senhora do Rosário) vai participar uma outra dupla constituída por José António Freire de Andrade “Alfredinho”, que conta com mais de 60 anos e Lourenço de Pina (confraria da Nossa Senhora da Graça).

Quer Nené di Bebeto, residente no bairro de Santa Filomena como Lourenço de Pina, morador de Cutelo Capado, participam, pelo terceiro ano, e foram recrutados pelos “reinados” Nho Tchina e Alfredinho para subsistir os seus companheiros de longa data, devido a idade avançada de “Mané di Papá” e do desaparecimento físico, há dois anos de Bebeto de Curral Ochô, companheiro de Alfredinho.

Em tempos não muito longínquo, o “Reinado” conhecera outro brilho e altura houve em que chegou a sair da Igreja Matriz de São Filipe 24 de confrarias ou grupos de “reinados”, constituídos, no mínimo, por três homens, segundo registos históricos.

O “Reinado” é uma tradição cultural secular, típica e exclusiva da ilha do Fogo, em que grupos de homens, devotos católicos, participam em ciclos de reza no período que medeia entre 06 de Janeiro e o dia de Cinzas, deslocando-se, de casa em casa, em todas as localidades da ilha, de pessoas que professam a fé católica.

A sua origem é um pouco duvidosa, e para alguns, poderá estar relacionada à celebração da festa dos reis em Portugal, mas nenhum dos “reinados” vivos sabem explicar, com precisão, a origem e a data da sua introdução na ilha, apesar da tradição ter estado ligada ao peditório para a construção da antiga Igreja Matriz de São Filipe, o que pode ter acontecido há algumas centenas de anos.

Conforme relatos, até a década de 70 do século passado, os “reinados” eram constituídos por grupos de homens, (três ou mais), católicos e praticantes, que andavam por toda a ilha, durante três luas, a realizar terços e pedindo ajuda a favor da Igreja.

Conforme se refere ainda, em tempos idos houve momentos em que cada confraria de “Reinado” integrava sete homens, sendo que cada grupo era constituído por um “rei” que dirige e controla tudo, um rei interino, um tesoureiro e outros participantes.

Acredita-se, no entanto, que o objectivo maior do “Reinado” era o da evangelização e todos os integrantes do grupo teriam de ser católicos, baptizados/crismados, casados e escolhidos pelo padre.

A tradição mandava que os “reis” se reunissem no dia 06 de Janeiro, na Igreja Matriz, onde assistiam à missa, seguido de uma volta à igreja, para depois cada um seguir o seu próprio itinerário, dando volta à Ilha.

Os “reinados” dirigiam-se primeiro em direcção à Cova Figueira (sul) e depois retornavam para a zona norte até chegar aos Mosteiros, uma vez que devido a uma lenda os mesmos não ultrapassam a ponte da ribeira de Baleia, que divide os municípios de Santa Catarina e Mosteiros.

Por isso mesmo, o “Reinado” sai de São Filipe e vai até junto da Ribeira de Baleia e volta atrás para ir aos Mosteiros via norte, desfazendo depois a volta até a cidade de São Filipe.

Cada um tem uma santa como patrona, sendo que, antigamente, a imagem era cedida pela igreja, para onde voltava, findo o reinado, mas hoje as santas são guardadas em casa dos “reinados”. Já o terço ou “ladainha”, na maioria das vezes, continua a ser rezado em latim, ainda nos dias de hoje.

Além da imagem da santa, o “Reinado” dispõe de outros instrumentos, nomeadamente um pequeno tambor para anunciar a sua chegada às localidades, um sino e o rosário, utilizados durante a realização do terço.

JR/CP

Inforpress/Fim

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