20 Julho 2019

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Renascer das lavas: Mustafa e Marisa querem voltar a investir em Chã

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Perderam tudo na erupção de 23 de Novembro. A ira das lavas levou-lhes duas pensões, a casa, mobiliários e um prejuízo de mais de 60 mil contos. Mesmo assim, Mustafa e Marisa, não querem voltar as costas a Chã das Caldeiras, nem à sua gente e já têm uma certeza: querem voltar a investir em Chã. É um sentimento de pertença que só quem lá viveu consegue sentir, mas dificilmente expressar em palavras. Marisa Lopes Pina, nascida e criada em Chã das Caldeiras, não se imagina a viver noutro “chão” que não aquele e até hoje ainda não conseguiu regressar lá cima, depois da erupção. Há mais de 14 anos a trabalhar no sector do turismo, foi com muita tristeza que viu os investimentos de uma vida serem levados pela lava. Um risco que sabia correr, mas que mesmo assim nunca a demoveu de viver e construir vida em Chã das Caldeiras, o seu lugar no mundo. Marisa e o marido Mustafa Eren eram proprietários das pensões Pedra Brabo e Casa Mariza e estavam habituados e receber turistas diariamente, empregando 17 pessoas, contribuindo para o sustento das respectivas famílias. Por isso mesmo, depois da erupção não conseguiram ficar parados à espera de promessas de ajuda. “O primeiro-ministro José Maria Neves disse no fórum que, quem teve muitas perdas ia ser recompensado, mas já lá vão seis meses, já é hora. Porque, se realmente há alguma recompensa, têm de nos dar para continuarmos as nossas vidas”, refere Marisa. CLARIFICAÇÃO Mas a jovem empresária quer com isso reclamar ajudas até porque ela e o Mustafa “não somos um casal que fica sentado à espera de apoio, por isso, mesmo sem apoio, já nos levantámos…”. Quer sim, que as autoridades clarifiquem a situação para delinearem uma estratégia dos planos que têm para o futuro. “Se tivéssemos a certeza de que vai haver um apoio, ou indeminização e em que quantidade, seria mais fácil planear. Temos de continuar o nosso trabalho, porque não somos só nós. Há 17 pessoas que estavam a trabalhar connosco e isso é uma grande responsabilidade”, destaca Mustafa. Porém, é também a imagem das gentes de Chã e do próprio país que sai um pouco manchada desta situação. É que, como o próprio explica, “fica feio para a população, dentro e fora de Chã das Caldeiras, e para aquelas pessoas e entidades que mandaram apoios para os deslocados, porque pensam que aqueles apoios já chegaram até nós”. Inclusive, Mustafa já passou por uma situação constrangedora. “Um amigo de Santo Antão viu na televisão que a União Europeia ia dar três milhões e ligou-me a dizer que íamos ficar melhor do que aquilo que estávamos antes da erupção”, lamenta. Por isso, o empresário adverte as autoridades para reporem a verdade. “Quero uma declaração oficial de que até agora não foi dado nenhum apoio financeiro, para todas as pessoas saberem que nós não tomamos nada de ninguém”. DE VOLTA AO TRABALHO Até porque, o casal, mesmo sem essa “clarificação”, já arregaçou as mangas e voltou ao trabalho. Com algumas poupanças alugaram duas residenciais, a Beiramar e Open Sky, em São Filipe, onde conseguiram criar condições para empregar pelo menos 10 dos seus antigos funcionários, arcando com isso, todos os custos de deslocação. “Eu assumi a renda de duas casas para os funcionários. Tenho funcionários que já tinham nove anos a trabalhar comigo, fico triste com a situação”, conta Marisa. O Open Sky abriu em Fevereiro e a Beiramar em Janeiro. “As pensões, graças a deus estão a funcionar, mas não é como em Chã, lá tinha mais lucro. Aqui estamos a trabalhar para pagar as contas. Mesmo que não esteja a ganhar dinheiro fico orgulhosa de continuar a empregar pessoas”, afirma. Em Chã, o casal estava habituado a trabalhar com 38 agências mas, depois da erupção, como eles já tinham as pensões em São Filipe para quem mandavam os seus clientes, a situação já não é a mesma, embora haja clientes que, mesmo assim continuem a trabalhar com eles. “Para a época de festas está tudo cheio (é bom). Mas, comparativamente a Chã, não é o tipo de trabalho, a que estávamos habituados. As duas pensões funcionavam todos os dias. Mesmo que não fosse nos quartos, tínhamos o restaurante cheio. Aqui na cidade, na Open Sky às vezes, estamos cinco dias sem clientes, mas a Beiramar está a funcionar direito. Temos muitos clientes alemães e temos clientes já conhecidos que nos telefonam e que dizem que vão para onde nós estivermos. Isso é muito importante para mim”, revela Marisa. Porém, em algumas situações, o casal está a perder a oportunidade de aumentar os rendimentos. “Temos clientes individuais e agências que vêm com grupos. No dia 20 vieram dois grupos, um de 12 e outro de 17 pessoas. Não tinha espaço, tive de os por em outra pensão”, garante a empresária. Oportunidades desperdiçadas Engenheiro civil e professor de guia-montanha, Mustafa veio para o Fogo trabalhar ao abrigo da cooperação alemã, em Chã das Caldeiras, já lá vão oito anos. Parte do seu trabalho era ministrar uma formação para guias. Mal imaginava que se iria render aos encantos de Chã das Caldeiras e tomar essa terra também como sua. Há mais de dois anos tornou-se presidente da Associação de Guias de Chã das Caldeiras, que conta com 42 membros. “Eu aprendo com eles e eles aprendem comigo. Tentamos melhorar, cada vez mais, e profissionalizar a profissão de guia, que é um trabalho muito sério e importante para Chã”. É esse orgulho em Chã e nas suas gentes que o levam a ser critico e acutilante nas suas opiniões sobre a forma como todo o processo da erupção foi gerido no país. “Depois de dois meses da erupção eu é que tive de avisar as agências em França que não era todo o Fogo que tinha sido evacuado. Eles leram na internet, no site inclusive do ministério do Turismo, que havia evacuação no Fogo e pensaram que toda a ilha tinha sido evacuada. E cancelaram logo as suas reservas para durante dois anos. Se havia uma informação correta na altura e a disponibilidade de entrada para turistas, toda a gente ia lucrar muito ali”, adverte. É que, em termos turísticos, o empresário considera que Chã ficou ainda mais interessante com a erupção. “No fórum, eu referi, inclusive, que é uma oportunidade que não foi nem está a ser aproveitada, é um potencial que Cabo Verde não usou de forma alguma”, afirma, para exemplificar que, em algumas regiões de Itália, que têm erupções de vulcão de sete em sete anos, depois de três dias de erupção, com o controlo da protecção civil, o lugar é aberto ao turismo. “Eles aumentam 10 a 15 vezes mais o número de turistas nesse período. No Fogo, durante quase um período de três meses, em São Filipe, só se viu todos os táxis parados, restaurantes e hóteis vazios, foi uma grande perda”, lamenta. Futuro incerto Depois do vulcão acalmar, já praticamente extinto, e de Mustafa ver que não havia perigo, chegou a contactar as autoridades governamentais para pedir uma licença para que os guias, “cursados” e “profissionais” pudessem entrar dentro das caldeiras, de forma controlada. Mas viu-se negado a isso. “Tínhamos muitos pedidos para fazer excursões, mas era feio para o país chegarmos a um sítio com o cliente e a polícia não deixar entrar, isso não é ser profissional”. Foi então que os guias arranjaram outra solução para poderem continuar a trabalhar. “Andamos quase duas semanas a tentar descobrir outros caminhos alternativos e caminhadas dentro das caldeiras. Fizemos os pacotes com todas as descrições e enviámos para as agências”. Agora, o empresário mostra-se preocupado com o rumo de Chã das Caldeiras. “Já temos mais de 100 pessoas em Chã, mais de 20 construções. As pessoas constroem onde acham que é direito, para elas. Estamos a ver a mesma situação que aconteceu em 1995”, alerta. Na sua óptica, as autoridades estão a descurar o factor social e cultural ao tratar o problema de Chã. “Fala-se muito de assuntos económicos, da construção das casas, mas estão a esquecer a parte cultural. Há famílias que vivem na Chã há mais de 100 anos e já passaram muitas erupções e foram essas pessoas que nos acalmaram e deram apoio na forma de controlar a situação”, conclui Mustafa, na certeza que ainda sem saber bem como e quando, também ele e Mariza irão voltar a investir em Chã e continuar a contribuir para o desenvolvimento económico e social daquela gente. Gisela Coelho Partilhe
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